Criado para garantir a segurança alimentar das famílias indígenas, o projeto Horta da Aldeia, desenvolvido pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), ultrapassou a marca de R$ 1 milhão em vendas acumuladas de 2018 até o fim de 2025.
A iniciativa tornou-se uma das principais ações de agricultura sustentável voltadas a comunidades indígenas e populações em situação de vulnerabilidade no Estado.
“Temos uma base de controle construída a partir das fichas de registro de vendas utilizadas pelas famílias. Isso permite organizar a produção no dia a dia e também sistematizar os resultados com segurança”, explica o gestor do projeto, professor André Dioney Fonseca.
Embora a geração de renda não tenha sido o foco inicial, o professor explica que ela se tornou um indicador do impacto do projeto. “O objetivo sempre foi garantir segurança alimentar. A comercialização surge como um desdobramento desse processo”, afirma.
Produção estruturada
Atualmente, o projeto atende 22 comunidades em 8 municípios de Mato Grosso do Sul, incluindo aldeias, escolas, associações e espaços comunitários. Um dos principais exemplos está na Aldeia 10 de Maio, em Sidrolândia, que reúne o maior número de famílias organizadas.
Na comunidade, 35 famílias participam dos programas PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), movimentando, em média, R$ 15 mil por ano cada. Os valores já ultrapassam a projeção inicial, sem considerar vendas diretas e feiras.
O gestor esclarece que, nas demais aldeias, o processo avança de forma gradual. Atualmente, também fazem parte do PAA e do PNAE 4 famílias na Aldeia Lagoinha e 1 na Aldeia Ipegue, em Aquidauana; 2 na Aldeia Nova Buriti; 6 na Aldeia dos André, em Dois Irmãos do Buriti; e 2 na Aldeia Paraíso dos Guerreiros, em Nioaque.
O professor afirma que o acesso aos programas exige o cumprimento de requisitos formais e envolve burocracia. Nesse contexto, o projeto atua apoiando na organização de documentos e na adequação da produção.
A organização produtiva na Aldeia 10 de Maio abriu portas para novos investimentos. “Hoje eles já conseguiram veículos, tratores e caminhões. O projeto cria condições para que as comunidades avancem em outras frentes, com mais autonomia”, destaca Dioney.
O horticultor e liderança indígena Adão Alves Custódio comemora: “Antes a gente pedia as coisas, mas não conseguia. Depois da produção das hortas, as portas se abriram. Hoje temos uma patrulha mecanizada completa aqui do território Buriti, com todos os equipamentos.”
A estimativa é que 20 mil pessoas foram impactadas pelo projeto em Mato Grosso do Sul, considerando efeitos diretos e indiretos.
Sistema produtivo integrado
Embora as hortas sejam o eixo central, o projeto evoluiu para um modelo mais amplo. Os roçados tradicionais, especialmente entre o povo Terena, passaram a ser incorporados como complemento. “Nos períodos mais quentes, quando a horta reduz a produção, o roçado cumpre um papel fundamental”, explica o gestor. O cultivo de frutas como banana, mamão, goiaba, maracujá e acerola também vem ganhando espaço.
Novos mercados
A comercialização se diversificou. Além de canais tradicionais como programas governamentais, supermercados e CEASA (Central de Abastecimento de Mato Grosso do Sul), o projeto impulsionou vendas diretas. Os indígenas vendem dentro das próprias aldeias, fornecem para pequenos mercados de bairro, atuam em cooperativas e fazem entrega direta, com uso de bicicletas, motos e veículos. “O que vemos é uma microeconomia ativa”, diz Dioney.
Fundo solidário
Cerca de 10% dos alimentos são reservados para um fundo solidário, que viabiliza a distribuição gratuita a pessoas e instituições escolhidas pela comunidade. Em algumas comunidades, os alimentos são destinados a famílias com pessoas com diabetes; em outras, a creches e instituições de apoio.
Reflexos na saúde
Embora não exista um estudo científico consolidado sobre a redução de doenças como diabetes e hipertensão, há indícios de melhora na alimentação. A liderança indígena Cleonice Guerreiro de Silva, da Aldeia Paraíso dos Guerreiros, afirma: “Tivemos ganhos com uma alimentação muito mais saudável. A horta melhora a saúde física e mental e ainda gera renda para as famílias.” Ela também destaca: “O projeto deu visibilidade para nossa comunidade, hoje já somos conhecidos como produtores de verduras de qualidade, sem veneno e saudável.”
O horticultor da Aldeia Barreirinho, Wildyhon Cleiton Cotócio Miranda, complementa: “Agora até em festa de aniversário tem verdura.”
Dioney afirma que há evidências observacionais e que o próximo passo é estruturar pesquisas com metodologia adequada para medir esses impactos.
Futuro
O projeto enfrenta limitações, principalmente relacionadas à disponibilidade de recursos para atender novas comunidades. Mesmo assim, a iniciativa se consolida como um modelo de desenvolvimento baseado na agroecologia, no respeito aos saberes tradicionais e na autonomia das populações indígenas. “Não se trata de impor modelos prontos. É um processo de adaptação e construção coletiva, respeitando a realidade e a cultura de cada comunidade”, conclui o gestor.
O projeto Horta da Aldeia é financiado por emendas parlamentares e pelo MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar). Desde 2018, apoia comunidades indígenas na criação de hortas agroecológicas para garantir alimentação saudável e gerar renda, combinando saberes tradicionais com técnicas sustentáveis.
