Uma página desaparecida do palimpsesto de Arquimedes, um manuscrito do século X com cópia dos tratados do cientista grego, foi localizada em um museu da França. A descoberta foi anunciada em 14 de março de 2026.
O físico, astrônomo, matemático e engenheiro Arquimedes viveu entre 287 e 212 a.C. em Siracusa. Seu trabalho chegou até os dias atuais, incluindo o conhecido princípio que leva seu nome.
Um palimpsesto é um pergaminho onde o texto original foi removido para que o material pudesse ser reutilizado. Essa prática era comum em uma época em que o suporte para escrita tinha alto valor.
O pesquisador Victor Gysembergh, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, foi quem fez a descoberta. O documento está no Museu de Belas Artes de Blois, na região central do país.
Os tratados de Arquimedes foram copiados no século X. O mesmo manuscrito também continha textos filosóficos, literários e religiosos. Posteriormente, por volta dos séculos XII e XIII, o conteúdo foi apagado e o pergaminho reciclado para virar um eucológio, um livro de orações para a liturgia.
A história deste único palimpsesto é incomum. O poeta e historiador dinamarquês Johan Ludvig Heiberg (1791-1860) o encontrou no final do século XIX. Em 1906, ele fotografou o documento página por página.
No entanto, o manuscrito desapareceu durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Ele ressurgiu em 1996, na França, como parte de uma coleção privada que seria leiloada.
Nesse período, três das 177 páginas do palimpsesto se perderam. Uma delas é a que Gysembergh localizou em Blois. Segundo o pesquisador, a descoberta aconteceu “um pouco por acaso”.
“Os palimpsestos me interessam porque são uma forma de redescobrir textos perdidos da Antiguidade. Ès vezes, procuro por eles em cidades específicas”, disse Gysembergh. Em um dia no escritório, ele comentou com colegas que parte da biblioteca dos reis da França estava preservada em Blois e sugeriu procurar lá.
A busca começou através do Arca, um catálogo online de manuscritos digitalizados. O resultado surpreendeu o pesquisador. “Foi muito inesperado encontrar um manuscrito grego”, afirmou. “E mais ainda um tratado científico do século X.”
Gysembergh comparou a página encontrada com as fotos tiradas em 1906, que estão disponíveis online pela Biblioteca Real da Dinamarca. A correspondência era exata. “O estilo da escrita é exatamente o mesmo, cada letra é exatamente a mesma. A figura geométrica é exatamente a mesma, exatamente no mesmo lugar”, explicou. Era o tratado de Arquimedes “Sobre a Esfera e o Cilindro”.
De um lado da página, o texto da cópia antiga é bastante visível. Do outro, há um desenho mais recente, provavelmente adicionado no século XX por um proprietário que tentava aumentar o valor do documento.
O pesquisador espera poder realizar uma análise mais aprofundada no próximo ano para decifrar melhor o texto. A descoberta renova a expectativa de que as outras duas páginas perdidas possam ser encontradas um dia.
“Até este achado, não havia motivo para esperar que as outras fossem encontradas. Agora, se instituições ou colecionadores privados têm esse tipo de manuscrito, devem considerar que poderia ser uma das páginas que faltam”, completou Gysembergh.
Os trabalhos do pesquisador foram publicados em 6 de março na revista alemã Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik.
