05/05/2026
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Água virtual: a dependência oculta das cidades

Nos anos 1990, o geógrafo britânico John Anthony Allan propôs o conceito de “água virtual”, que designa o volume de água utilizado ao longo de toda a cadeia produtiva de um bem, mesmo que essa água não esteja fisicamente presente no produto final. Allan mostrou que países comercializam não apenas grãos, carne, minérios ou energia, mas também água, em um fluxo invisível.

Quando vestimos uma camiseta de algodão, consumimos a água usada no cultivo do algodão e no processamento têxtil. Ao tomar café, consumimos a água que sustenta o cafeeiro. Ao abastecer um carro, também consumimos água, mesmo que ela não apareça na bomba de combustível. A água virtual revela que os fluxos hidrológicos perpassam silenciosamente as cadeias produtivas e sustentam o funcionamento da sociedade moderna.

No Brasil, a ideia ganha dimensão particular quando aplicada às cidades e à produção de etanol de cana-de-açúcar. Para entender essa conexão, é necessário recorrer ao conceito de Urbsistema. Inspirado na noção de ecossistema, um urbsistema pode ser definido como um sistema que importa e processa bens, utiliza energia e água, transforma esses insumos em serviços e gera resíduos. A cidade não é apenas um aglomerado de prédios e pessoas, mas um sistema metabólico que importa energia, água e materiais, processa-os, presta serviços e gera resíduos.

Na análise de água virtual, distinguem-se três categorias. A água verde é a água da chuva que se infiltra no solo e é absorvida pelas plantas. A água azul é a água retirada diretamente de rios, lagos ou aquíferos para irrigação, abastecimento ou uso industrial. A água cinza corresponde ao volume necessário para diluir os poluentes gerados no processo produtivo até níveis ambientalmente aceitáveis.

No caso da cana-de-açúcar cultivada principalmente no Centro-Sul do Brasil, a maior parte da água envolvida é verde. A cultura depende essencialmente das chuvas sazonais. Ao abastecer um veículo em São Paulo com etanol, estamos consumindo chuva que caiu meses antes sobre os canaviais. Isso altera a compreensão do metabolismo urbano. A cidade não é hidrologicamente autossuficiente. Ela depende de territórios agrícolas que capturam energia solar e água atmosférica, transformando-as em energia utilizável.

Comparando com outras rotas energéticas, o etanol de milho também pode depender majoritariamente de água verde em sistemas de sequeiro, mas apresenta menor rendimento energético por área cultivada. Em contextos com irrigação suplementar, aumenta a participação da água azul, elevando a pressão sobre os recursos hídricos locais. Já a gasolina, derivada do petróleo, não depende de fotossíntese, mas tampouco é hidrologicamente neutra: a extração, o transporte e o refino utilizam água industrial, e os efluentes gerados implicam volumes associados à água cinza.

A diferença fundamental está na natureza do fluxo. No caso do etanol de cana, a base é predominantemente água verde, o que significa que uma parte significativa da mobilidade urbana brasileira está ancorada ao regime pluviométrico regional. A estabilidade do transporte urbano depende, em certa medida, da regularidade das chuvas. Uma seca prolongada pode afetar não apenas o abastecimento doméstico, mas também a produção agrícola que sustenta a matriz energética. A água virtual amplia o conceito de risco urbano.

No contexto das mudanças climáticas, alterações na distribuição temporal das chuvas e aumento da frequência de eventos extremos podem afetar tanto o abastecimento urbano quanto a produção agrícola. O uso de fertilizantes e práticas de manejo pode gerar cargas de poluentes associados à água cinza. A expansão desordenada da produção pode retroagir sobre o ciclo hidrológico que sustenta a própria agricultura. Reconhecer a água virtual como componente estrutural dos urbsistemas é necessário para uma visão integrada das transições climáticas. Energia e água são dimensões inseparáveis do metabolismo urbano.

A contribuição de Allan foi revelar que os fluxos invisíveis sustentam as estruturas aparentes. No Brasil, uma parte significativa da vida urbana repousa na regularidade das chuvas que alimentam os canaviais. O tanque de combustível também é um reservatório indireto de água verde. A cidade moderna permanece profundamente dependente da natureza, apenas reorganizou essa dependência em redes técnicas complexas.

(*) Por Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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