A indústria de Mato Grosso do Sul ampliou sua participação no PIB estadual nas últimas quatro décadas, impulsionada pela guerra fiscal entre os estados. O setor se destaca no Centro-Oeste, região que ganhou relevância industrial enquanto o país passava por um processo de desindustrialização desde a década de 1980. O diagnóstico é de um estudo do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial). Os autores alertam para o desafio com o fim gradual dos incentivos fiscais até 2032, principal instrumento usado pelo estado para atrair investimentos.
Segundo o instituto, a participação da indústria de transformação no PIB estadual mais que dobrou entre 1985 e 2023. O setor passou de 6,8% para 14,8% da economia sul-mato-grossense. O crescimento foi puxado pela agroindústria, celulose (Eldorado, Suzano e Arauco), frigoríficos (JBS e Minerva), biocombustíveis (etanol de cana e milho), logística e mineração. O avanço ocorreu com a migração de empresas dos principais centros industriais do país, concentrados no Sul e Sudeste, especialmente em São Paulo.
Com esse desempenho, Mato Grosso do Sul lidera o crescimento da participação industrial no Centro-Oeste. Em seguida vem Goiás, onde a fatia da indústria de transformação foi de 11,2% para 14,3%, com destaque para o polo farmacêutico de Anápolis. Os dados têm como base as Contas Nacionais do IBGE e informações da RAIS (Relatório Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho.
O diretor-executivo do IEDI, Rafael Cagnin, avalia que os ganhos industriais de Mato Grosso do Sul aproximaram a participação do estado da média nacional, de 15,2% em 2023. No mesmo período, a fatia da indústria de transformação na economia brasileira encolheu. Em 1985, o setor respondia por 26,8% do PIB nacional, uma redução de quase metade em quatro décadas, puxada pela perda de participação de São Paulo.
Além da guerra fiscal, outros fatores contribuíram para a redução da participação da indústria na economia nacional. Entre eles estão juros elevados, câmbio valorizado, concorrência externa sem planejamento, carga tributária alta sobre bens industriais, burocracia e baixos investimentos em infraestrutura. Mato Grosso também teve alta, mas mais modesta, passando de 8,0% para 8,5% do PIB.
Como a maioria dos incentivos estaduais está vinculada ao ICMS, a extinção gradual desse imposto até 2032 coloca em risco a continuidade da política de incentivos fiscais. Pela reforma tributária, os benefícios vinculados ao ICMS começarão a perder efeito a partir de 2029, com a transição para o novo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Para reduzir os impactos, a reforma criou um Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais, com repasses da União entre 2025 e 2032.
Apesar do avanço, a participação industrial sul-mato-grossense ainda é “relativamente pequena” no conjunto da indústria nacional, segundo Cagnin. Atualmente, representa 1,64%, ante cerca de 0,23% em 1985. Outro ponto destacado é a concentração da indústria estadual em setores de baixa intensidade tecnológica, com cadeias produtivas menos complexas.
Cagnin afirma que estados em desenvolvimento industrial têm recorrido à guerra fiscal para atrair investimentos. “Essa prática não é necessariamente positiva, pois pode levar a uma má alocação de recursos”, diz. Com o fim dos incentivos, a competitividade terá que se basear em condições estruturais, como melhorias na infraestrutura para escoamento da produção e proximidade com fontes de matéria-prima.
